4.09.2007


Nessa cidade a neve nunca para de cair. Os telhados são sempre brancos, os gramados são sempre brancos, as plantas são sempre secas. As pessoas andam de um lado para outro, cobertas por vários agasalhos, grossas blusas e casacos. Um lugar, aparentemente inabitável, de clima hostil.

Capítulo 01 – Terra Manchada

- Estão chamando nossa cidade de sangrenta! A taxa de mortalidade vem crescendo absurdamente. Mortes misteriosas, abortos, acidentes, assassinatos! É a manchete principal do jornal! – o velho barbado sentando ao centro da mesa protestava sobre o que lera no jornal enquanto balançava-o de um lado para o outro.

O restante da família jantava despreocupada, observando os atos e ditos desesperados do velho que não calava a boca por um só instante. Quem poderia dizer se aquilo tudo não era só coincidência ou sensacionalismo? Provavelmente nunca os atingiria. Era esse o pensamento de todos os presentes.

* - * - * - * - *

A papelada amontoada sobre a mesa impedia que o leitor desta fosse visto. Escondido atrás das montanhas de papel, ele lia algumas folhas soltas de um arquivo. Três batidas ritmadas na porta, e o homem esguio, de cabelos castanhos cortados até a altura do queixo que lhe caíam sobre o rosto, quase escondendo os olhos amarelados, adentra a saleta. Mesmo que não possa ver o que se esconde por detrás da papelada, o leitor identifica o visitante.

O visitante tira uma pasta do bolso interno de seu sobretudo preto e solta sobre uma das pilhas de papel derrubando alguns folhas.

- Vocês não tardam a me darem mais trabalho! – uma voz quase infantil em um tom sarcástico caminha de trás das pilhas de papel até os ouvidos do visitante.

- As crianças não devem contestar as decisões dos adultos! – o visitante responde igualmente sarcástico.

A mão, de uma palidez cândida, escala as papeladas derrubando algumas outras folhas e pastas até alcançar a pasta deixada por seu visitante.

- O que é dessa vez?

- Veja você mesmo.

O pequeno sai de seu “esconderijo”, mostrando sua face jovial. Um garoto que poderia ter cerca de um metro e cinqüenta de altura e de pele quase tão branca quanto a neve que caía lá fora, de cabelos negros compridos presos em um rabo-de-cavalo, olhos verdes amendoados, vestindo roupas vitorianas de cores cinza e preta.

- Eu detesto vocês! – resmungava. – Eu nem sei onde fica esse endereço que tá escrito aqui.

O homem riu.

- Já esperava por isso! Não se preocupe, vou deixá-lo no local. – tirando do bolso uma pequenina chave argêntea presa a uma fina corrente de mesma cor e estendendo-a ao garoto prosseguiu. – Te vejo nos portões amanhã cedo.

Enquanto o garoto admirava o brilho da pequena chave em suas mãos, o visitante seguiu até a saída da sala.

- Ei! – o pequeno chama-o de volta.

- Qual o problema agora? Mais alguma coisa que não sabe sobre o trabalho? – perguntou virando-se lá da porta, onde estava.

- Não tenho relógio. Como vou saber quando amanhecer?

- Quando vir o sol.

- Aqui não tem janelas.

Suspirou. Dobrou a manga do braço esquerdo e retirou do pulso o relógio de pulseira de couro preto e jogou-o em direção ao garoto.

- Só não me diga que não sabe ler as horas! Eu não tenho relógios digitais. – terminando com as palavras atravessou e fechou a porta.

O garoto observando o conteúdo deixado por seu visitante voltou para detrás da sua papelada, empurrou uma cadeira que lá estava e sentou-se no chão para ler tudo. Analisando as fotos e cada letra impressa naquelas páginas caiu no sono, ali no chão mesmo.

* - * - * - * - *

Eram cinco horas da manhã quando aquele homem, de cabelos castanhos e olhos amarelos, atravessava caminhos entre alamedas identificando-se com um pequeno broche de cerca de três centímetros de diâmetro aos milhares de guardas uniformizados e armados que encontrava ao decorrer do caminho.

Finalmente chegando ao fim do caminho depara-se com a escadaria de entrada de uma mansão. A escadaria toda em marfim, coberta pela neve, em suas extremidades, grandes colunas cheias de adornos. Sobre seus degraus, o garoto, coberto por uma capa preta, dormia encostado a uma dessas colunas.

Vendo a cena, passa mão sobre a própria testa e suspira decepcionado. Continua caminhando. Chegando ao degrau onde o pequeno encontra-se pisa forte propositalmente. Os guardas, que estavam diante à porta velando o sono daquele, olham desagradados para o visitante. Ignorando a ação destes bate com o punho fechado levemente sobre a cabeça do garoto, que acorda atordoado.

- O que você tá fazendo aí? – o homem pergunta irritado.

- Estava esperando. – respondeu meio sonolento, esfregando os olhos. Após um breve bocejo continua. – Você demorou tanto!

- Demorar? Desde que horas tá sentado aí?

- Desde que o dia começou. – tirou a mão de debaixo da capa. Segurava o relógio. Estendo-o prosseguiu. – Marcava uma hora...

- Seu moleque... Se não fosse tão hábil com seu trabalho teria me negado a fazer isso. Para qualquer outra coisa você não passa de um ignorante!

Uma velha senhora com seus cabelos brancos presos numa longa trança, de olhos apertados, que impedia que o castanho de sua íris fosse visto, usando um vestido vinho por debaixo do casaco marrom, atravessou a porta. Parecia serena observando os dois.

- Não o chame de ignorante. – protestou docilmente. – Crianças são inocentes e não ignorantes. Só lhe falta aprender um pouco mais.

- Como pode falar assim?! Olha o tamanho desse moleque. Como pode não saber coisas tão simples.

- Meu filho, seja paciente. Afinal, você não veio buscar alguém que entenda coisas tão simples. Veio atrás de outras habilidades.

Ele baixou a cabeça e coçou levemente a nuca. Depois, pegando o garoto pelo pulso saiu a arrastá-lo caminho afora. A velha senhora os observava, sorrindo sutilmente.

* - * - * - * - *

Os dois estavam escondidos atrás das árvores, a um metro de distância da imensa casa amarela, cercada por muros altos e, tendo como única entrada, um alto portão de grades pretas. Guardando os portões, seguranças presos dentro de seus paletós e gravatas, tanto do lado de fora quanto de dentro da área cercada pelos muros.

Segurando o garoto pelo ombro, ele se curvava e falava sério e firme, quase repressor.

- Você leu tudo? Sabe o que deve fazer? – perguntava rapidamente sem esperar respostas. – Lembre-se de não deixar pistas e nem se identificar de forma alguma. É bom que ninguém saiba nada a seu respeito. – e, checando a hora em seu relógio de pulso, continuou. – São seis da manhã. Você tem doze horas. Às seis da tarde tudo deve estar acabado. E não me venha com histórias de não tenho relógio! Estamos na cidade e não numa longínqua mansão no meio do nada. Quando você ouvir as badaladas do sino da igreja é bom que já esteja aqui fora. Seis badaladas. Estarei aqui, as seis, esperando para voltarmos.

- Como eu faço para entrar?

- Dê um jeito! Só não extrapole o tempo. – disse já partindo.

Deixado sozinho, ele imaginava uma forma de passar por aqueles portões e tantos seguranças, mas não achava nada em sua cabeça. Logo decidiu pela forma mais óbvia e, também, mais comprometedora.

Seguiu em direção ao portão de entrada. Ficou parado diante deste, olhando para o lado de dentro. Logo um dos guardas aproximou-se dele querendo saber o que fazia ali.

- Eu quero entrar. – respondeu confiante, firme, sem hesitação.

- Você não pode entrar. Isso é propriedade privada. – respondeu áspero, o guarda.

- Mas, se você não me deixar entrar, terei de invadir. E isso não vai ser nada bom.

- Moleque, você não pode entrar, nem invadir! Vá embora.

Nesse momento uma jovem moça, por volta de seus vinte e poucos anos aproximou-se do portão olhando para o lado de fora. Ela poderia ser pouco mais alta que o garoto, possuía cabelos loiros ondulados abaixo dos ombros, olhos castanhos claros de expressão bem viva, possuindo face rosada, vestida elegantemente em um vestido azul que lhe cobria até os joelhos. Observando o lado de fora, seu olhar encontra o garoto discutindo com o guarda. Põe-se a assistir até ter sua atenção chamada.

- Senhorita, algum problema? – outro segurança, do lado de dentro, pergunta ao notá-la observando a cena.

- Não se preocupe, senhorita. Mandarei esse moleque para longe daqui. – disse o que estava a discutir ao ouvir a indagação do colega.

- Olhe bem para esse jovem. – disse a moça. – Você diria que é algum tipo de delinqüente? Como um garoto bem vestido e de boa aparência como esse, poderia ser apenas um moleque qualquer?

- O que quer dizer, senhorita? Está insinuando que ele possa ser do seu mesmo nível?

- Possivelmente. – e dirigindo-se ao garoto. – O que você deseja?

- Entrar! – respondeu já um pouco irritado pelas complicações que havia arranjado.

- Pois bem, que entre.

- Mas, senhorita, como pode permitir a entrada de um estranho? – perguntava o guarda contrariado.

- Ora, se por acaso, faça por merecer, não hesitarei em chamá-los.

Assim dizendo, os portões foram abertos e finalmente o garoto conseguiu o que queria: entrar naquela fortaleza tão bem vigiada.

Acompanhado pela gentil moça, caminhava pelos jardins ao redor da casa, sempre olhando desconfiado para os lados.

- Conheço todas as famílias nobres da cidade, mas não lembro de você. – comentou curiosa a respeito do repentino visitante.

- Eu não moro na cidade.

- Entendi. Seus pais estão procurando algum lugar por aqui? Por isso saiu para dar uma volta?

- Mais ou menos.

- Quantos anos você tem?

Pensando nas recomendações recebidas antes de iniciar tudo aquilo hesitou. Permaneceu calado enquanto a moça esperava por respostas.

- Certo, não quer me dizer. Então, vou supor. Pela sua cara não deve ter mais que uns quinze anos. É bem mais novo do que eu. Já tenho vinte e dois.

- Não parece.

- Isso foi um elogio? Até que foi bem gentil! De um jeito um pouco estranho, mas gentil.

- Ahn?

- E seu nome? Vai dizer?

- Nome...?

- Para você dizer o seu, me apresentarei, me chamo Laura.

- Prazer.

- Só prazer? Você é muito novinho pra ter esse jeito todo sério.

- “Eu vi essa menina nas fotos, mas não é ela que estou procurando. Onde será que tá?” – pensou já impaciente. – Onde estão seus pais? – perguntou tentando se desviar da curiosidade dela.

- Pais? Minha mãe está na biblioteca. Acho que meu pai saiu. Mas, já que quer conhecê-los, não se preocupe, está convidado para almoçar conosco!

- Hmm... O que você faz? Passa o dia inteiro só andando por aqui?

- Na verdade não, mas é que hoje não vou ter aulas. Falando nisso, você deveria estar no colégio. Garotinho feito você tem aula logo cedo, não é?

- Já disse que não sou da cidade. E não me chame de garotinho!

- E de onde você é?

- Ah, você é insistente!

- Ora, ajudei você a entrar, não ajudei? Não custa nada responder minhas perguntas.

- A minha casa fica nos limites da cidade.

- E por que não freqüenta o colégio?

- Tenho aulas em casa. A tia Ortensia falou que assim eu aprendo mais do que se fosse à escola.

- Que nome estranho. Você e sua tia são estrangeiros?

- Não. Além disso, não é porque a chamo de tia que ela tem realmente que ser minha tia.

- Que complicado! Mas, o jeito que você fala é muito bonitinho! Estou começando a achar que me enganei com a sua idade. Você deve ter bem menos que quinze anos.

Aquelas conversas eram muito cansativas. Uma perda de tempo. Por mais que aquela moça fosse gentil com ele, por mais que tivesse facilitado sua entrada na casa, não estava fazendo nada além de irritá-lo, atrasá-lo. Ao menos havia dado uma chance de encontrar quem queria. Seria o convidado para o almoço em família.

* - * - * - * - *

Todos sentados à mesa, em seus lugares marcados. Inúmeros talheres e taças dispostos sobre a mesa. Tudo caprichosamente arrumado sobre a toalha elegante, combinando com as cortinas da imensa sala. Empregados serviam a comida a todos, enquanto os membros da família trocavam algumas palavras entre si. A filha apresentava à família seu convidado. Todos estranhavam o fato deste não retirar as luvas no momento da refeição, mas respeitando a opção do convidado, ficaram calados a respeito disto. Sorte de aquele garoto ter aprendido bem a lidar com situações como aquela. Fora obrigado por Ortensia a aprender todos aqueles detalhes de como se portar em ambientes como tal, todas as regras de etiqueta. As irritantes regras.

Ele observava atenciosamente cada rosto daquela mesa, imaginava como faria para conseguir o que queria. Não podia deixar pistas, não podia se identificar. Um alto grau de dificuldade nesta situação.

O patriarca perguntava coisas a seu respeito, algumas foram perguntas feitas pela filha, mas ele se negava a responder mudando de assuntou ou simplesmente calando-se.

Aquele velho barbado, preso em roupas tão elegantes e tão desconfortáveis. Ao mesmo tempo em que parecia interessado sobre o convidado da filha, sentia-se desconfiado, intrigado a respeito daquele.

- Então, meu jovem, existe algo que goste de fazer? Algo em especial?

- Ler. Eu passo o tempo livre lendo.

- Então vejo que além de muito jovem, também é muito culto. Espécime raro nos dias de hoje.

Apenas ouviu enquanto terminava sua refeição. O velho não parava de falar. Contava histórias a respeito de como encontraria, sem problemas, jovens daquele tipo em seu tempo. Falava sobre livros que lera. Finalmente tocara nos assuntos atuais. Mais uma vez mostrava-se revolto sobre a situação atual. Falava sobre os crimes o qual lera no jornal. Isso definitivamente chamou a atenção do garoto, levando-o a manifestar-se perante a conversa.

- O senhor, o que tem a dizer, qual sua opinião sobre o que causa tantas mortes atualmente?

- Ora, além de tudo se interessa por problemas sociais! Muito bem, conversemos ao término de nossa refeição. Mostrarei a você a biblioteca de minha casa. Certamente ficará encantado com nosso acervo. Também poderemos falar sobre isso. Estou curioso para saber qual sua visão a respeito disso. Concordou meneando a cabeça positivamente.

Assim como dito, ao fim do almoço, seguiram os dois até a biblioteca. Orgulhoso, o velho exibia suas imensas coleções de livros. A porta estava fechada. Estavam a sós. O velho o convidou a sentar e começaram suas discussões.

- Você perguntou minha opinião sobre o ocorrido. Acredito que não sejam coincidências. Alguém está planejando tudo isso e escolhendo de quem deseja se livrar, ou seja, funciona como uma máfia. E qual sua opinião, meu jovem?

- Que o senhor está errado!

Disse de forma tão segura e séria que conseguiu assustar um velho homem facilmente.

O jovem levantou-se. De debaixo de sua capa, da bainha presa a suas costas tirou uma espada curta a qual usou para, silenciosa e rapidamente, impedindo qualquer reação que chamasse atenção, decapitar o velho num só golpe. A cabeça tomba de seu corpo caindo no chão onde rola alguns centímetros para longe da poltrona onde o homem morrera. O sangue escorria do pescoço sujando-lhe as roupas.

O sangue que respingara em sua face tinha um vermelho que contrastava violentamente com a palidez de sua pele.

Guardou rapidamente a espada ainda suja de sangue. Pretendia deixar a sala sem ser visto. Deveria abandonar aquele corpo ensangüentado e a cabeça degolada sobre o chão antes que alguém viesse a vê-lo. Sairia pela janela, daria um jeito de atravessar os portões, se necessário, mataria os guardas também. Mas, antes que pudesse executar seus planos foi surpreendido pelo barulho da porta se abrindo e a suave voz chamando por seu pai.

Ao presenciar a cena do corpo jogado sobre a poltrona encharcada com o sangue que escorria de seu pescoço, Laura teve um choque tão grande que perdera a fala e não conseguia mexer-se de forma alguma. Apenas observava silenciosa e assustada.

O garoto vira-se para ela. Após ter visto aquilo não poderia deixar assim. Se dissesse alguma coisa destruiria tudo. Só lhe sobrara uma opção: matá-la também.

Finalmente ela sente a voz voltar a sua garganta, mas não pensa em gritar ou chamar alguém. É observando a face ensangüentada daquele garoto que ela própria pusera dentro de sua casa que proferia suas primeiras palavras, ainda roucas, saindo com dificuldades de uma garganta seca.

- Seu monstro! O que você fez?

Sem resposta, ele apenas aproxima-se e, com um golpe rápido, desferido logo após retirar a espada da bainha em suas costas, abre uma fenda em seu estômago fazendo o sangue fluir sobre o azul de seu vestido. Tosse fraca enquanto o sangue transborda entre seus lábios escorrendo lentamente pelo queixo. Ele a deixa agonizando enquanto abre a janela e salta por esta. Não encontrando nenhuma saída, fora a que pensara, vê-se obrigado a livrar-se dos seguranças também e os eliminado da forma mais rápida possível rouba-lhes as chaves e abandona o local.

Dirige-se para o lugar onde marcou de encontrar-se ao terminar seu trabalho para esperar que venha buscá-lo.

Aos poucos o tumulto surge ao redor da casa. A polícia e a mídia aparecem fazendo cada uma seu trabalho.

O garoto aproveita o fato de ter terminado seu serviço mais cedo que o esperado para tirar um cochilo encostado numa árvore.

* - * - * - * - *

É acordado por uma forte dor em sua cabeça. Reconhece o lugar onde se encontra, está de volta a sua casa, está em seu quarto sentado numa poltrona. Situando-se, olha ao redor. A sua frente encontra a face da pessoa que esperou durante horas. Horas que não percebeu passar enquanto dormia.

- Moleque imbecil! Como pode dormir próximo ao local onde executou o trabalho?

- Eu tinha acabado de comer. Me deu muito sono.

- Que tipo de animal você é? Sai matando depois de ter comido! Além disso, você matou gente demais!

- Não tive outra opção. Não entendo porque aquela menina parecia se importar tanto. Ele já estava velho ia morrer a qualquer hora. Como não tinha tempo para perguntar, a matei e fui embora.

O homem virou-se cansado, olhou para Ortensia, a velha senhora que, da porta do quarto, os observava.

- Onde mesmo você achou esse bicho? – perguntou indignado com os modos do garoto.

- A índole das pessoas depende muito da forma como cresceram. – ela explicava. – Você, por exemplo, é do jeito que é, pela forma como minha filha o criou. Já ele, ele faz jus ao modo como o criei.

- Você é meio sombria às vezes. Desde que eu era criança você me assusta.

- Não diga isso da sua avó, meu filho. – dizia entrando no quarto.

Caminhando para junto da poltrona onde o garoto estava, curvou-se e o cercou com seus braços magros de veias a mostra. Com seus longos e secos dedos acariciava o rosto dele.

- Por que a minha cabeça está doendo? – ele perguntava passando a mão sobre esta.

- Você o bateu novamente, Pedro? – Ortensia perguntava olhando para o neto.

- Na cabeça? É! Só para acordar mais rápido.

- Você o trata como um bicho e o chama de bicho. Lembro-me de ter-lhe dado um nome. Lembra qual foi? Serve para que você o chame por ele.

- Lembro, vovó. É Locke.

- Muito bem! Agora vamos deixá-lo descansar.

Ortensia puxou a capa de Locke, que estava estendida sobre o braço da poltrona, e revistou seus bolsos até que se encontra a pequena chave que lhe foi dada por Pedro. Após tê-la em mãos retira-se do quarto junto do neto, trancando a porta com a chave argêntea. Lá dentro Locke apenas ouvia o suave som produzido pela fina corrente quando a chave virava dentro da fechadura.

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