4.25.2007

Bump of Chicken
Karma

Garasudama hitotsu otosareta oikakete mou hitotsu okkochita
Hitotsu bun no hidamari ni hitotsu dake nokotteru

Shinzou ga hajimatta toki iya demo hito ha basho wo toru
Ubawarenai you ni mamoritsuzuketeru

Yogosazu ni tamottekita te demo yogorete mieta
Kioku wo utagau mae ni kioku ni utagawareteru

Kanarazu bokura ha deau darou
Onaji kodou no oto wo mejirushi ni shite
Koko ni iru yo itsu datte yonderu kara
Kutabireta riyuu ga kasanatte yureru toki
Umareta imi wo shiru

Sonzai ga tsuzuku kagiri shikata nai kara basho wo toru
Hitotsu bun no hidamari ni futatsu ha chotto hairenai

Garasudama hitotsu otosareta ochita toki nanika hajikidashita
Ubaitotta basho de hikari wo abita

Kazoeta ashiato nado kizukeba suuji de shika nai
Shiranakya ikenai koto ha dou yara ichi to zero no aida

Hajimete bokura ha deau darou
Onaji himei no hata wo mejirushi ni shite
Wasurenai de itsudatte yonderu kara
Kasaneta riyuu wo futari de umeru toki
Yakusoku ga kawasareru

Kagami nanda bokura tagai ni
Sorezore no karuma wo utsusu tame no
Yogoreta te to te de sawariatte
Katachi ga wakaru

Koko ni iru yo tashika ni sawreru yo
Hitori bun no hidamari ni bokura ha iru

Wasurenai de itsudatte yonderu kara
Onaji garasudama no uchigawa no hou kara
Sou sa kanarazu bokura ha deau darou
Shizumeta riyuu ni jyuujika wo tateru toki
Yakusoku ha hatasareru
Bokura ha hitotsu ni naru

4.16.2007

Nova abertura de Katekyo Hitman Reborn! com tema na saga dos anéis vongola

4.15.2007

"Você não percebe porque nunca deixa o conforto do interior da sua casa, mas a humanidade está cheia de pessoas crueis. E é por causa disso que me vejo no direito de puní-las."

Death Note - The Last Name

Filme perfeito!

4.12.2007

Uma garotinha de óculos de lentes grossas, usando um vestido de estampa floral, sempre com feição muito séria, tinha os dedos tão rápidos que quando digitava era impossível de se ver. Havia ganhado seu primeiro computador aos oito anos e passava todo o tempo em seu quarto junto dele.

Capítulo 02 – Gênio

Era quase meia noite quando uma menina de baixa estatura, carregando uma mochila, cabelos curtos e óculos de lentes grossas, entrava num restaurante pequeno e de aparência vulgar na periferia da cidade. Sentou-se ao balcão e pediu um café. Esfregou as mãos até receber o pedido, quando, fortemente, apertou a xícara com as duas mãos, a fim de aquecê-las. Pousou-a sobre o balcão, pôs a mochila em seu colo e dela retirou um laptop que abriu ali mesmo, depois retirou dos bolsos da mochila fios, fones de ouvido e alguns MD’s. Digitava rápido demais. O incômodo, para alguns, e incessante barulho das teclas chamava a atenção de algumas pessoas ali presentes, em especial a do barman que se aproximou curioso a perguntar.

- Ei, mocinha, não é aconselhável andar com essas coisas por aqui.

Ela o ignorou. Parou por uns segundos de teclar para beber um gole de seu café.

- O que tanto faz? – insistiu não agüentando de tanta curiosidade.

Ela empurrou os óculos com o indicador colocando-os novamente no lugar, encarou-o friamente e retirando os fones de ouvido decidiu responder.

- Trabalho.

- Isso não é hora de trabalhar. Além disso, não é muito novinha para isso, não?

- Tenho dezoito.

A seriedade daquelas palavras foi, para um simples atendente de bar, como um golpe de misericórdia. Intimidado, ficou sem reação olhando para a moça.

Virou o que ainda restava de seu café. Guardou os fios e fones na mochila. Levantou-se jogando a mochila sobre o ombro esquerdo e segurando o laptop com a mão direita. Revistou seus bolsos até encontrar o dinheiro jogando-o sobre o balcão. Nem sequer importava-se se estava certo ou errado. Retirou-se. Caminhando para longe do estabelecimento abriu o computador e pressionou uma tecla para confirmar ação. Logo surgiu o fogo e o som característicos da explosão às costas.

- Gente estúpida! Sacrificar gente tão medíocre me faz achar esse trabalho inútil.

* - * - * - * - *

- Fui transferida contra minha vontade para essa área.

Ortensia ouvia a visitante enquanto apanhava na escrivaninha de sua sala alguns documentos que veio a entregar-lhe em seguida. Voltando à mesa, apanha a chave do quarto de Locke e, em seguida, faz soar um pequeno sino de som agudo.

- Creio que você será uma ótima companhia para Locke. Não tenha dúvidas de que será bem cuidada em minha casa.

- Essa é a ficha dele? – dizia folheando os papeis que lhe foram entregues. – Toda a lenda é verdade! – disse irônica. – Esse é o pequeno animal que você cria.

São ouvidos dois toques rápidos à porta que logo é aberta. Uma jovem empregada uniformizada adentra a sala reverenciando as duas.

- Clara, traga Locke até aqui. – disse Ortensia estendendo-lhe a chave.

Acatando as ordens, a moça apanha a pequena chave argêntea das velhas e acabadas mãos de Ortensia e confirmando o que lhe foi dito retira-se.

Retomando o assunto à velha, toma feição incomodada.

- Não gostaria que se referisse a ele como um animal, Olívia. – disse ríspida.

- Não se sinta ofendida. Você é minha superior, mas de qualquer forma, ninguém está acostumado com a idéia de um pirralho assassino sem noção do mundo ao seu redor.

* - * - * - * - *

Entrando no quarto, silenciosamente, Clara, chama por Locke num tom suave, como se estivesse com medo de assustar alguém, como se não quisesse ser escutada. Andando pelo quarto procura cuidadosamente atrás da mesa, no meio dos livros, olha sobre a cama, mas não há ninguém. Em meio a sua busca chega a tropeçar em livros jogados pelo chão.

De repente escuta algo cair, ou melhor, deslizar. O mesmo barulho que se ouve quando algo desliza de súbito sobre uma superfície macia. Nesse momento seus olhos localizam a poltrona no canto do quarto. O barulho houvera sido produzido por um livreto que escorregara por entre os braços de Locke adormecido sobre o móvel. Havia caído no sono durante a leitura.

Clara chamou por seu nome, mas não podia exceder o limite da altura de sua voz, balançou-o, mexeu nele todo que nem sequer mostrou sinais de incômodo. Como última opção lembrou-se de Pedro, apanhou o livreto que estava aos pés da poltrona, hesitou no primeiro momento, mas logo bateu com este na cabeça de Locke. Este apertou os olhos e aos poucos os abriu enquanto passava mão sobre a cabeça, no local do impacto. Notando que havia conseguido, a moça aproximou-se e pousou o livreto sobre o braço da poltrona.

- Locke, a senhora Ortensia quer vê-lo agora.

- Que dia é hoje?

- Quarta-feira.

- Mas, às quartas-feiras só tenho aulas durante a tarde, e ainda não almoçamos.

- É que a senhora está com visita. Certamente deseja apresentá-lo.

- Isso é um incômodo!

Levantou-se cheio de birra. Caminhou em direção a porta do jeito que estava: cabelos despenteados, meio presos meio soltos, gravata desamarrada sobre o pescoço, primeiros botões da camisa abertos e pés descalços.

Clara tentou impedi-lo, mas não conseguiu alcançar seus passos apressados. Quando percebeu, já estavam na sala de Ortensia.

Locke praticamente invadiu a sala, entrando sem pedir permissão e batendo a porta forte ao atravessá-la. Logo em seguida, entra Clara desculpando-se pelo acontecido.

- Sinto muito! Muitíssimo mesmo, senhora! Eu tentei impedi-lo. Mas, a senhora conhece melhor do que eu o quanto é perigoso tentar qualquer coisa.

- Não precisa se desculpar. – disse Ortensia fazendo sinal para que se retirasse.

A moça logo seguiu suas ordens.

Na sala, Olívia observava Locke com um sorriso sádico. Logo começou a gargalhar.

- Me desculpe, Ortensia! Não pude me conter. – disse entre pausas de seu riso. – Você tem um espécime muito engraçado aqui!

- Quem é você, anã?! – perguntou Locke, ao notar que era maior que Olívia. – Por que não tá chamando ela de senhora, como todo mundo?

- Cada um com seus privilégios, animalzinho!

Ortensia interviu chamando a atenção com um pigarreio.

- Não o chamei aqui para começar uma briga, Locke. – e aproximando-se dele prosseguiu. – E isso não são modos de se apresentar. Olhando para essa sua cara, posso dizer que acaba de ser acordado.

- Desculpa, tia. Acabei caindo no sono de novo enquanto lia.

- Hmm... Essa é Olívia. – disse apontando para a visitante. – Ficará conosco por um tempo.

- E o que tenho eu com isso?

- Vocês dois trabalham na mesma área. Agora, volte para o seu quarto e dê um jeito na sua aparência. De preferência, tome um longo banho. Olívia ficará com você até quando formos almoçar.

Mordendo o lábio inferior num estímulo de ira, Locke aceitou a ordem, confirmando com um menear de cabeça e retirando-se bravo da sala.

Observando a cena, Olívia ajustava os óculos ao rosto com o dedo indicador.

- Você domou o animalzinho mesmo!

- Olívia, sei bem que costuma fazer tudo sozinha, mas tenha paciência desta vez. Não foi opção minha. Ao que dependesse de mim, Locke poderia trabalhar com qualquer um exceto você.

- Noto que parece considerá-lo além do que desejaria. “Ortensia é só a tutora, mas trata aquele moleque como se fosse seu bebê.” Ouvi coisas do tipo várias vezes. Na verdade já não gostei deste lugar assim que pisei aqui. É muito frio! Prefiro esquentar as coisas. Só me chateia o fato de ter de me livrar de gente inútil! Eles não ajudam e nem atrapalham, mesmo assim põem-se no caminho. Gente inútil!

- Para alguém do seu nível todos são inúteis. Desde que era criança, as pessoas lhe pareciam inúteis. Locke não é um inútil, então não vá livrar-se dele quando achar que deve. Vocês devem trabalhar juntos e não um contra o outro, por isso a mandaram aqui antes que partissem para executar a tarefa. De qualquer forma, me resta apenas fazer-lhe um último alerta.

- Último alerta? Por acaso não está confiando a mim?

- Eu a conheço desde que era criança e sei bem como age, ou tem agido atualmente. O que quero avisar é para ter cuidado. Não ouse usar Locke para saciar sua libido. Caso o faça serei eu quem irá puni-la.

- Tudo bem que um moleque sem senso como é ele, é fácil para essas coisas, mas não se preocupe, seu bichinho não faz meu tipo.

* - * - * - * - *

Pelos corredores Locke caminhava com passos vagarosos e pesados batendo forte contra o piso a cada passo, enquanto resmungava. Maneira típica de se demonstrar insatisfação. Durante o percurso, era seguido por Clara que, a todo instante tentava dizer algo para acalmá-lo, mas hesitava ao ouvir o som do pé contra o piso junto dos murmúrios.

De súbito ele pára no meio do caminho, fica olhando para os próprios pés. A emprega assustada pára onde está, esperando por alguma reação. Lentamente ele olha para trás, um olhar apavorante sobre a moça, que se sente toda arrepiada.

- Tá me seguindo por quê? – pergunta num tom mórbido.

- Er... aju...dar?

- A quê?! Como vai ajudar? Só ajudaria se pudesse me livrar daquela menina irritante!

- Sinto muito!

- Mas... – nesse momento Locke desvia o olhar, como se se sentisse constrangido.

- Mas?

- Pode fazer com que eu fique pronto mais rápido...? Assim a tia não vai brigar comigo.

A moça concorda com um sim gutural e aproxima-se deste acompanhando-o até seu quarto.

* - * - * - * - *

Locke e Olívia passeiam pelos jardins aos arredores da casa de Ortensia. Ela usava tantos agasalhos que parecia sem pescoço, e seu rosto era quase impossível de ser visto. Parecia tremer mesmo dentro de tantas roupas. Já Locke, acostumado ao clima da região, sentia-se bem à vontade agasalho com apenas um casaco.

- Que cabelinho de moça esse, hein? – Olívia comenta no intuito de irritá-lo.

- O que você tem com isso? Ao menos não estou parecendo um palhaço redondo dentro de tantas roupas!

- Não me fale disso! Esse climinha de vocês é irritante. Sabe, eu moro num lugar quente, cheio de praias, meu apartamento tem vista para o mar.

- Então, tá fazendo o que aqui? Vai logo embora!

- Não é assim que as coisas funcionam!

Olívia parou de andar e deixou escapar um suspiro de cansaço, esfregou as mãos dentro das grossas luvas e começou a falar.

- Acho que a Ortensia não te contou, mas estamos no mesmo tipo de trabalho. Apenas não faço como você. Enquanto você mata uma pessoa, eu destruo uma cidade inteira. Certo que nem sempre é assim, mas já tive de fazê-lo. Às vezes é só um lugar.

- Como faz isso? – começava a mostrar interesse pelo assunto.

- Explosões! Construo bombas e aciono pelo computador. É bem simples.

- Mas isso quer dizer, que tem vezes que você mata mesmo quem não está envolvido.

- Fazer o quê!? Acho estupidez perder meu tempo destruindo gente assim, mas é esse maldito trabalho.

Ambos permaneceram calados por um instante. Locke parecia perdido em pensamentos, pensamentos sobre o que acabara de ouvir. Olívia observava-o querendo acabar com aquele silêncio constrangedor. Até que lhe ocorreu uma idéia.

- Ei, vamos sair daqui! – ela puxou-o pela mão, tirando-o bruscamente de seus pensamentos.

- Eu não saio. – disse aplicando força sobre o chão, tornando-se pesado demais para que fosse puxado.

- Quê!? Que pensamento retardado é esse? Vamos sair... Não tem nada pra fazer nesse lugar. Além disso, me obedeça! Ortensia disse que ficaria comigo durante o resto da manhã. Então, vamos sair!

- Só saio se a tia me autorizar.

- Quantos anos você tem afinal? Três?!

- Não, eu tenho...

- Já sei! Li sua ficha. Isso foi modo de falar. – o interrompeu.

- Eu não vou sair! Lá fora também não tem nada pra fazer.

- Lá é mais fácil encontrar. Se você vai ficar se fazendo de difícil, vamos até a Ortensia, que ela autoriza.

* - * - * - * - *

Olívia arrastava Locke pelas ruas, parecia bem alegre por ter saído, o frio já não parecia incomodar-lhe tanto quanto antes, provavelmente por causa dos movimentos rápidos que fazia agora, andando, praticamente, saltitante pelas ruas, com um sorriso idiota estampado no rosto, quase destruindo sua feição intelectual.

- Eu sabia que ela deixaria! Aqui fora não é bem mais animado?

- Não! Vamos voltar.

- Você parece um velho, mesmo sendo um molequinho. Ah! Faz tanto tempo que não vejo ninguém além do meu tutor e minhas vítimas, que até um molequinho como você serviria, mas a Ortensia me mataria se fizesse alguma coisa.

- Do quê tá falando?

- Se ao menos eu visse o Alexander mais uma vez! Já faz tanto tempo que a gente se viu. – continuou a falar ignorando a pergunta de Locke.

- Quem é Alexander?

- O atirador! Você não conhece? Não conhece nenhum dos outros?

- Outros? Eu acabei de saber que você também executa. Como eu posso conhecer outros?

- Alexander é um sniper. Acho que é só um ou dois anos mais velho que você. Ao menos não é tão moleque!

- Pára de me chamar de moleque!

* - * - * - * - *

Em seu escritório, Ortensia recebia o neto e um colega de trabalho, o tutor de Olívia. Os três sentados em cadeiras confortáveis ao redor de uma mesa de vidro e tomavam um chá enquanto conversavam sobre trabalho. Mais especificamente discutiam sobre Olívia, Locke e o que havia sido designado para os dois.

O tutor de Olívia não era tão velho quanto Ortensia, poderia ter seus trinta anos. Vestia um paletó preto, que levava uma insígnia no lado esquerdo do peito, um uniforme. Estudava cautelosamente a ficha de Locke, passando devagar página por página.

Soltando os papéis sobre na mesa, dirigiu-se a colega.

- Por que não me enviou o material antes?

- Nesse tipo de vida deve haver bastante cautela. Eu nunca enviaria informações. Sabe-se lá o que poderia acontecer pelo caminho! – explicou, ela.

- Poderia ter mandado por Pedro. – já parecia irritado.

- E se algo acontecesse a ele pelo caminho? Não, não. Deve-se pensar em tudo. Por que isso o incomoda?

- Por quê? Acho incoerente eles terem sido designados a trabalharem juntos. Olívia poderia resolver tudo como na noite passada.

- Se fosse assim ela já teria ido embora.

- Na verdade, tudo isso só está acontecendo devido a uma falha. – complementou, Pedro.

- Walter, você não previu tudo.

- Como me fala em prever!? – Walter esfregava a mão na nuca de uma forma preocupada. – Ninguém imaginaria que acionariam o sistema quando fosse anunciada a morte daqueles dois! Não tínhamos como saber que haviam mais envolvidos!

- Talvez tivéssemos, só não foi dada devida atenção ao caso. – em nenhum momento Ortensia alterava-se.

Pedro retirava a louça da mesa, puxava uns rolos de papéis encostados em sua cadeira e estendia-os sobre o tampo vidro.

- É um subterrâneo. – explicava, apontando o local sobre o mapa que tinha aberto. – Olívia precisa chegar aqui discretamente e destruir tudo, enquanto, em cima, Locke deve localizar suas vítimas e eliminá-las sem ser notado. Sugiro que seja durante a madrugada. Por volta das onze as ruas dessa cidade já estão completamente vazias.

- Então, por que esperar até a madrugada? – Walter pergunta.

- Imaginei que alguém do seu nível entenderia. – Ortensia comentou, zombando dele. – Precaução. “por volta das onze” não significa “exatamente onze”. Esperar um pouco mais é só questão de cuidado. Bem, mas não devemos nos preocupar com a falta de entendimento. O único aqui do setor de estratégia é o Pedro mesmo.

- Eu preciso saber alguma coisa sobre você, Walter? – Pedro pergunta retomando o assunto. – Será invasão de propriedade privada, mas precisamente uma residência. Dos guardas já sabemos que Locke cuidará, mas enquanto as fechaduras... Bem, queremos algo discreto, Olívia poderia... – antes que terminasse a frase foi interrompido por Walter iniciando um discurso orgulhoso.

- Violar as trancas? Claro. De todos os tipos! O que mais se pode esperar de uma mocinha que construiu uma bomba de nêutrons aos treze anos? Olívia é uma autodidata. De todos, é a de maior nível intelectual! Não se preocupem quanto a isso, ela o fará sem problemas.

- Parece confiante. – Ortensia comenta. – Mas, lembre-se que nesse trabalho o intelecto não é a única salvação. Estudei bem a ficha dela. Fisicamente é um desastre. Nessa missão será protegida por Locke. – adverte. – Além do que, aquela menina é uma pervertida!

* - * - * - * - *

Olívia e Locke estavam sentados à mesa de um restaurante. Um lugar grande e luxuoso. Mesas cobertas por belas toalhas, galerias de janelas de vidro ornamentadas por cortinas e flores, lustres de vidro, piso de mármore, recepcionista, garçons, dividido em alas e tudo o mais. Eles estavam numa mesa próxima a uma das várias janelas, sobre a mesa, pratos com fatias de tortas cobertas por creme e enfeitadas com pedaços de frutas. Olívia saboreava o pedido comentando a todo o tempo o quão gostoso estava, enquanto Locke nem tocava o prato observando o lado de fora pela janela.

- Ô! Não vai comer, não? Eu tô pagando pra você. – Olívia reclamava ao vê-lo distraído sem sequer olhar para o que ela havia pedido.

- Eu não pedi isso. – reclamou virando-se para ela.

- Ai, ai, você dá mais trabalho do que parece. E daí que não pediu? Eu estou te dando.

- Eu não quero.

- Que coisa! Será que o bebezinho não come porcarias antes do almoço?!

- Por que estamos fazendo isso? Será que eu não poderia ter ficado em casa?

- Existe algo mais divertido para se fazer. – Olívia atirou sobre o garoto um olhar, um tom sádico. – Mas, só podemos se não disser nada para sua titia.

- Pára de me olhar com essa cara ridícula!

- Ah! Com você, qualquer uma perde a vontade! – reclamou. – Se quer saber, eles não nos queriam lá.

- Eles?! Você sabe o que é! Me conta!!

- Que adianta? Você deve contar tudo para a Ortensia. Além disso, você me desanimou. Ao menos experimenta o doce. Está tão bom!

Locke observou o prato por um breve instante, mexeu de um lado para o outro com o garfo. Depois, volto-se para Olívia entregando-lhe a torta.

- Não gosto de morangos.

- Não tenho dúvidas de que você me irrita!

De repente uma sombra surge sobre a mesa. Alguém se aproximou dos dois sem que fosse notado. Ambos olham para o alto em busca do rosto do invasor. Deparam-se com Pedro e sua expressão de chateação.

- A vovó me mandou buscá-los. – avisou. – E como deu trabalho encontrá-lo! Da próxima vez se escondam num local mais próximo.

Quando Olívia terminou de comer seus doces, pagou a conta e, junto de Locke, acompanhou Pedro de volta a casa de Ortensia.

4.11.2007

One Last Wish - James Horner

4.09.2007


Nessa cidade a neve nunca para de cair. Os telhados são sempre brancos, os gramados são sempre brancos, as plantas são sempre secas. As pessoas andam de um lado para outro, cobertas por vários agasalhos, grossas blusas e casacos. Um lugar, aparentemente inabitável, de clima hostil.

Capítulo 01 – Terra Manchada

- Estão chamando nossa cidade de sangrenta! A taxa de mortalidade vem crescendo absurdamente. Mortes misteriosas, abortos, acidentes, assassinatos! É a manchete principal do jornal! – o velho barbado sentando ao centro da mesa protestava sobre o que lera no jornal enquanto balançava-o de um lado para o outro.

O restante da família jantava despreocupada, observando os atos e ditos desesperados do velho que não calava a boca por um só instante. Quem poderia dizer se aquilo tudo não era só coincidência ou sensacionalismo? Provavelmente nunca os atingiria. Era esse o pensamento de todos os presentes.

* - * - * - * - *

A papelada amontoada sobre a mesa impedia que o leitor desta fosse visto. Escondido atrás das montanhas de papel, ele lia algumas folhas soltas de um arquivo. Três batidas ritmadas na porta, e o homem esguio, de cabelos castanhos cortados até a altura do queixo que lhe caíam sobre o rosto, quase escondendo os olhos amarelados, adentra a saleta. Mesmo que não possa ver o que se esconde por detrás da papelada, o leitor identifica o visitante.

O visitante tira uma pasta do bolso interno de seu sobretudo preto e solta sobre uma das pilhas de papel derrubando alguns folhas.

- Vocês não tardam a me darem mais trabalho! – uma voz quase infantil em um tom sarcástico caminha de trás das pilhas de papel até os ouvidos do visitante.

- As crianças não devem contestar as decisões dos adultos! – o visitante responde igualmente sarcástico.

A mão, de uma palidez cândida, escala as papeladas derrubando algumas outras folhas e pastas até alcançar a pasta deixada por seu visitante.

- O que é dessa vez?

- Veja você mesmo.

O pequeno sai de seu “esconderijo”, mostrando sua face jovial. Um garoto que poderia ter cerca de um metro e cinqüenta de altura e de pele quase tão branca quanto a neve que caía lá fora, de cabelos negros compridos presos em um rabo-de-cavalo, olhos verdes amendoados, vestindo roupas vitorianas de cores cinza e preta.

- Eu detesto vocês! – resmungava. – Eu nem sei onde fica esse endereço que tá escrito aqui.

O homem riu.

- Já esperava por isso! Não se preocupe, vou deixá-lo no local. – tirando do bolso uma pequenina chave argêntea presa a uma fina corrente de mesma cor e estendendo-a ao garoto prosseguiu. – Te vejo nos portões amanhã cedo.

Enquanto o garoto admirava o brilho da pequena chave em suas mãos, o visitante seguiu até a saída da sala.

- Ei! – o pequeno chama-o de volta.

- Qual o problema agora? Mais alguma coisa que não sabe sobre o trabalho? – perguntou virando-se lá da porta, onde estava.

- Não tenho relógio. Como vou saber quando amanhecer?

- Quando vir o sol.

- Aqui não tem janelas.

Suspirou. Dobrou a manga do braço esquerdo e retirou do pulso o relógio de pulseira de couro preto e jogou-o em direção ao garoto.

- Só não me diga que não sabe ler as horas! Eu não tenho relógios digitais. – terminando com as palavras atravessou e fechou a porta.

O garoto observando o conteúdo deixado por seu visitante voltou para detrás da sua papelada, empurrou uma cadeira que lá estava e sentou-se no chão para ler tudo. Analisando as fotos e cada letra impressa naquelas páginas caiu no sono, ali no chão mesmo.

* - * - * - * - *

Eram cinco horas da manhã quando aquele homem, de cabelos castanhos e olhos amarelos, atravessava caminhos entre alamedas identificando-se com um pequeno broche de cerca de três centímetros de diâmetro aos milhares de guardas uniformizados e armados que encontrava ao decorrer do caminho.

Finalmente chegando ao fim do caminho depara-se com a escadaria de entrada de uma mansão. A escadaria toda em marfim, coberta pela neve, em suas extremidades, grandes colunas cheias de adornos. Sobre seus degraus, o garoto, coberto por uma capa preta, dormia encostado a uma dessas colunas.

Vendo a cena, passa mão sobre a própria testa e suspira decepcionado. Continua caminhando. Chegando ao degrau onde o pequeno encontra-se pisa forte propositalmente. Os guardas, que estavam diante à porta velando o sono daquele, olham desagradados para o visitante. Ignorando a ação destes bate com o punho fechado levemente sobre a cabeça do garoto, que acorda atordoado.

- O que você tá fazendo aí? – o homem pergunta irritado.

- Estava esperando. – respondeu meio sonolento, esfregando os olhos. Após um breve bocejo continua. – Você demorou tanto!

- Demorar? Desde que horas tá sentado aí?

- Desde que o dia começou. – tirou a mão de debaixo da capa. Segurava o relógio. Estendo-o prosseguiu. – Marcava uma hora...

- Seu moleque... Se não fosse tão hábil com seu trabalho teria me negado a fazer isso. Para qualquer outra coisa você não passa de um ignorante!

Uma velha senhora com seus cabelos brancos presos numa longa trança, de olhos apertados, que impedia que o castanho de sua íris fosse visto, usando um vestido vinho por debaixo do casaco marrom, atravessou a porta. Parecia serena observando os dois.

- Não o chame de ignorante. – protestou docilmente. – Crianças são inocentes e não ignorantes. Só lhe falta aprender um pouco mais.

- Como pode falar assim?! Olha o tamanho desse moleque. Como pode não saber coisas tão simples.

- Meu filho, seja paciente. Afinal, você não veio buscar alguém que entenda coisas tão simples. Veio atrás de outras habilidades.

Ele baixou a cabeça e coçou levemente a nuca. Depois, pegando o garoto pelo pulso saiu a arrastá-lo caminho afora. A velha senhora os observava, sorrindo sutilmente.

* - * - * - * - *

Os dois estavam escondidos atrás das árvores, a um metro de distância da imensa casa amarela, cercada por muros altos e, tendo como única entrada, um alto portão de grades pretas. Guardando os portões, seguranças presos dentro de seus paletós e gravatas, tanto do lado de fora quanto de dentro da área cercada pelos muros.

Segurando o garoto pelo ombro, ele se curvava e falava sério e firme, quase repressor.

- Você leu tudo? Sabe o que deve fazer? – perguntava rapidamente sem esperar respostas. – Lembre-se de não deixar pistas e nem se identificar de forma alguma. É bom que ninguém saiba nada a seu respeito. – e, checando a hora em seu relógio de pulso, continuou. – São seis da manhã. Você tem doze horas. Às seis da tarde tudo deve estar acabado. E não me venha com histórias de não tenho relógio! Estamos na cidade e não numa longínqua mansão no meio do nada. Quando você ouvir as badaladas do sino da igreja é bom que já esteja aqui fora. Seis badaladas. Estarei aqui, as seis, esperando para voltarmos.

- Como eu faço para entrar?

- Dê um jeito! Só não extrapole o tempo. – disse já partindo.

Deixado sozinho, ele imaginava uma forma de passar por aqueles portões e tantos seguranças, mas não achava nada em sua cabeça. Logo decidiu pela forma mais óbvia e, também, mais comprometedora.

Seguiu em direção ao portão de entrada. Ficou parado diante deste, olhando para o lado de dentro. Logo um dos guardas aproximou-se dele querendo saber o que fazia ali.

- Eu quero entrar. – respondeu confiante, firme, sem hesitação.

- Você não pode entrar. Isso é propriedade privada. – respondeu áspero, o guarda.

- Mas, se você não me deixar entrar, terei de invadir. E isso não vai ser nada bom.

- Moleque, você não pode entrar, nem invadir! Vá embora.

Nesse momento uma jovem moça, por volta de seus vinte e poucos anos aproximou-se do portão olhando para o lado de fora. Ela poderia ser pouco mais alta que o garoto, possuía cabelos loiros ondulados abaixo dos ombros, olhos castanhos claros de expressão bem viva, possuindo face rosada, vestida elegantemente em um vestido azul que lhe cobria até os joelhos. Observando o lado de fora, seu olhar encontra o garoto discutindo com o guarda. Põe-se a assistir até ter sua atenção chamada.

- Senhorita, algum problema? – outro segurança, do lado de dentro, pergunta ao notá-la observando a cena.

- Não se preocupe, senhorita. Mandarei esse moleque para longe daqui. – disse o que estava a discutir ao ouvir a indagação do colega.

- Olhe bem para esse jovem. – disse a moça. – Você diria que é algum tipo de delinqüente? Como um garoto bem vestido e de boa aparência como esse, poderia ser apenas um moleque qualquer?

- O que quer dizer, senhorita? Está insinuando que ele possa ser do seu mesmo nível?

- Possivelmente. – e dirigindo-se ao garoto. – O que você deseja?

- Entrar! – respondeu já um pouco irritado pelas complicações que havia arranjado.

- Pois bem, que entre.

- Mas, senhorita, como pode permitir a entrada de um estranho? – perguntava o guarda contrariado.

- Ora, se por acaso, faça por merecer, não hesitarei em chamá-los.

Assim dizendo, os portões foram abertos e finalmente o garoto conseguiu o que queria: entrar naquela fortaleza tão bem vigiada.

Acompanhado pela gentil moça, caminhava pelos jardins ao redor da casa, sempre olhando desconfiado para os lados.

- Conheço todas as famílias nobres da cidade, mas não lembro de você. – comentou curiosa a respeito do repentino visitante.

- Eu não moro na cidade.

- Entendi. Seus pais estão procurando algum lugar por aqui? Por isso saiu para dar uma volta?

- Mais ou menos.

- Quantos anos você tem?

Pensando nas recomendações recebidas antes de iniciar tudo aquilo hesitou. Permaneceu calado enquanto a moça esperava por respostas.

- Certo, não quer me dizer. Então, vou supor. Pela sua cara não deve ter mais que uns quinze anos. É bem mais novo do que eu. Já tenho vinte e dois.

- Não parece.

- Isso foi um elogio? Até que foi bem gentil! De um jeito um pouco estranho, mas gentil.

- Ahn?

- E seu nome? Vai dizer?

- Nome...?

- Para você dizer o seu, me apresentarei, me chamo Laura.

- Prazer.

- Só prazer? Você é muito novinho pra ter esse jeito todo sério.

- “Eu vi essa menina nas fotos, mas não é ela que estou procurando. Onde será que tá?” – pensou já impaciente. – Onde estão seus pais? – perguntou tentando se desviar da curiosidade dela.

- Pais? Minha mãe está na biblioteca. Acho que meu pai saiu. Mas, já que quer conhecê-los, não se preocupe, está convidado para almoçar conosco!

- Hmm... O que você faz? Passa o dia inteiro só andando por aqui?

- Na verdade não, mas é que hoje não vou ter aulas. Falando nisso, você deveria estar no colégio. Garotinho feito você tem aula logo cedo, não é?

- Já disse que não sou da cidade. E não me chame de garotinho!

- E de onde você é?

- Ah, você é insistente!

- Ora, ajudei você a entrar, não ajudei? Não custa nada responder minhas perguntas.

- A minha casa fica nos limites da cidade.

- E por que não freqüenta o colégio?

- Tenho aulas em casa. A tia Ortensia falou que assim eu aprendo mais do que se fosse à escola.

- Que nome estranho. Você e sua tia são estrangeiros?

- Não. Além disso, não é porque a chamo de tia que ela tem realmente que ser minha tia.

- Que complicado! Mas, o jeito que você fala é muito bonitinho! Estou começando a achar que me enganei com a sua idade. Você deve ter bem menos que quinze anos.

Aquelas conversas eram muito cansativas. Uma perda de tempo. Por mais que aquela moça fosse gentil com ele, por mais que tivesse facilitado sua entrada na casa, não estava fazendo nada além de irritá-lo, atrasá-lo. Ao menos havia dado uma chance de encontrar quem queria. Seria o convidado para o almoço em família.

* - * - * - * - *

Todos sentados à mesa, em seus lugares marcados. Inúmeros talheres e taças dispostos sobre a mesa. Tudo caprichosamente arrumado sobre a toalha elegante, combinando com as cortinas da imensa sala. Empregados serviam a comida a todos, enquanto os membros da família trocavam algumas palavras entre si. A filha apresentava à família seu convidado. Todos estranhavam o fato deste não retirar as luvas no momento da refeição, mas respeitando a opção do convidado, ficaram calados a respeito disto. Sorte de aquele garoto ter aprendido bem a lidar com situações como aquela. Fora obrigado por Ortensia a aprender todos aqueles detalhes de como se portar em ambientes como tal, todas as regras de etiqueta. As irritantes regras.

Ele observava atenciosamente cada rosto daquela mesa, imaginava como faria para conseguir o que queria. Não podia deixar pistas, não podia se identificar. Um alto grau de dificuldade nesta situação.

O patriarca perguntava coisas a seu respeito, algumas foram perguntas feitas pela filha, mas ele se negava a responder mudando de assuntou ou simplesmente calando-se.

Aquele velho barbado, preso em roupas tão elegantes e tão desconfortáveis. Ao mesmo tempo em que parecia interessado sobre o convidado da filha, sentia-se desconfiado, intrigado a respeito daquele.

- Então, meu jovem, existe algo que goste de fazer? Algo em especial?

- Ler. Eu passo o tempo livre lendo.

- Então vejo que além de muito jovem, também é muito culto. Espécime raro nos dias de hoje.

Apenas ouviu enquanto terminava sua refeição. O velho não parava de falar. Contava histórias a respeito de como encontraria, sem problemas, jovens daquele tipo em seu tempo. Falava sobre livros que lera. Finalmente tocara nos assuntos atuais. Mais uma vez mostrava-se revolto sobre a situação atual. Falava sobre os crimes o qual lera no jornal. Isso definitivamente chamou a atenção do garoto, levando-o a manifestar-se perante a conversa.

- O senhor, o que tem a dizer, qual sua opinião sobre o que causa tantas mortes atualmente?

- Ora, além de tudo se interessa por problemas sociais! Muito bem, conversemos ao término de nossa refeição. Mostrarei a você a biblioteca de minha casa. Certamente ficará encantado com nosso acervo. Também poderemos falar sobre isso. Estou curioso para saber qual sua visão a respeito disso. Concordou meneando a cabeça positivamente.

Assim como dito, ao fim do almoço, seguiram os dois até a biblioteca. Orgulhoso, o velho exibia suas imensas coleções de livros. A porta estava fechada. Estavam a sós. O velho o convidou a sentar e começaram suas discussões.

- Você perguntou minha opinião sobre o ocorrido. Acredito que não sejam coincidências. Alguém está planejando tudo isso e escolhendo de quem deseja se livrar, ou seja, funciona como uma máfia. E qual sua opinião, meu jovem?

- Que o senhor está errado!

Disse de forma tão segura e séria que conseguiu assustar um velho homem facilmente.

O jovem levantou-se. De debaixo de sua capa, da bainha presa a suas costas tirou uma espada curta a qual usou para, silenciosa e rapidamente, impedindo qualquer reação que chamasse atenção, decapitar o velho num só golpe. A cabeça tomba de seu corpo caindo no chão onde rola alguns centímetros para longe da poltrona onde o homem morrera. O sangue escorria do pescoço sujando-lhe as roupas.

O sangue que respingara em sua face tinha um vermelho que contrastava violentamente com a palidez de sua pele.

Guardou rapidamente a espada ainda suja de sangue. Pretendia deixar a sala sem ser visto. Deveria abandonar aquele corpo ensangüentado e a cabeça degolada sobre o chão antes que alguém viesse a vê-lo. Sairia pela janela, daria um jeito de atravessar os portões, se necessário, mataria os guardas também. Mas, antes que pudesse executar seus planos foi surpreendido pelo barulho da porta se abrindo e a suave voz chamando por seu pai.

Ao presenciar a cena do corpo jogado sobre a poltrona encharcada com o sangue que escorria de seu pescoço, Laura teve um choque tão grande que perdera a fala e não conseguia mexer-se de forma alguma. Apenas observava silenciosa e assustada.

O garoto vira-se para ela. Após ter visto aquilo não poderia deixar assim. Se dissesse alguma coisa destruiria tudo. Só lhe sobrara uma opção: matá-la também.

Finalmente ela sente a voz voltar a sua garganta, mas não pensa em gritar ou chamar alguém. É observando a face ensangüentada daquele garoto que ela própria pusera dentro de sua casa que proferia suas primeiras palavras, ainda roucas, saindo com dificuldades de uma garganta seca.

- Seu monstro! O que você fez?

Sem resposta, ele apenas aproxima-se e, com um golpe rápido, desferido logo após retirar a espada da bainha em suas costas, abre uma fenda em seu estômago fazendo o sangue fluir sobre o azul de seu vestido. Tosse fraca enquanto o sangue transborda entre seus lábios escorrendo lentamente pelo queixo. Ele a deixa agonizando enquanto abre a janela e salta por esta. Não encontrando nenhuma saída, fora a que pensara, vê-se obrigado a livrar-se dos seguranças também e os eliminado da forma mais rápida possível rouba-lhes as chaves e abandona o local.

Dirige-se para o lugar onde marcou de encontrar-se ao terminar seu trabalho para esperar que venha buscá-lo.

Aos poucos o tumulto surge ao redor da casa. A polícia e a mídia aparecem fazendo cada uma seu trabalho.

O garoto aproveita o fato de ter terminado seu serviço mais cedo que o esperado para tirar um cochilo encostado numa árvore.

* - * - * - * - *

É acordado por uma forte dor em sua cabeça. Reconhece o lugar onde se encontra, está de volta a sua casa, está em seu quarto sentado numa poltrona. Situando-se, olha ao redor. A sua frente encontra a face da pessoa que esperou durante horas. Horas que não percebeu passar enquanto dormia.

- Moleque imbecil! Como pode dormir próximo ao local onde executou o trabalho?

- Eu tinha acabado de comer. Me deu muito sono.

- Que tipo de animal você é? Sai matando depois de ter comido! Além disso, você matou gente demais!

- Não tive outra opção. Não entendo porque aquela menina parecia se importar tanto. Ele já estava velho ia morrer a qualquer hora. Como não tinha tempo para perguntar, a matei e fui embora.

O homem virou-se cansado, olhou para Ortensia, a velha senhora que, da porta do quarto, os observava.

- Onde mesmo você achou esse bicho? – perguntou indignado com os modos do garoto.

- A índole das pessoas depende muito da forma como cresceram. – ela explicava. – Você, por exemplo, é do jeito que é, pela forma como minha filha o criou. Já ele, ele faz jus ao modo como o criei.

- Você é meio sombria às vezes. Desde que eu era criança você me assusta.

- Não diga isso da sua avó, meu filho. – dizia entrando no quarto.

Caminhando para junto da poltrona onde o garoto estava, curvou-se e o cercou com seus braços magros de veias a mostra. Com seus longos e secos dedos acariciava o rosto dele.

- Por que a minha cabeça está doendo? – ele perguntava passando a mão sobre esta.

- Você o bateu novamente, Pedro? – Ortensia perguntava olhando para o neto.

- Na cabeça? É! Só para acordar mais rápido.

- Você o trata como um bicho e o chama de bicho. Lembro-me de ter-lhe dado um nome. Lembra qual foi? Serve para que você o chame por ele.

- Lembro, vovó. É Locke.

- Muito bem! Agora vamos deixá-lo descansar.

Ortensia puxou a capa de Locke, que estava estendida sobre o braço da poltrona, e revistou seus bolsos até que se encontra a pequena chave que lhe foi dada por Pedro. Após tê-la em mãos retira-se do quarto junto do neto, trancando a porta com a chave argêntea. Lá dentro Locke apenas ouvia o suave som produzido pela fina corrente quando a chave virava dentro da fechadura.

4.05.2007

Teorema
Legião Urbana


Não vá embora
Fique um pouco mais
Ninguém sabe fazer
O que você me faz
É exagero
E pode até não ser
O que você consegue
Ninguém sabe fazer.
Parece energia mas é só distorção
E não sabemos se isso é problema
Ou se é a solução
Não tenha medo
Não preste atenção
Não dê conselhos
Não peça permissão
É só você quem deve decidir o que fazer
Pra tentar ser feliz
Parece energia mas é só distorção
E parece que sempre termina
Mas não tem fim
Não vá embora
Fique um pouco mais
Ninguém sabe fazer
O que você me faz
É exagero
E pode até não ser
O que você consegue
Ninguém sabe fazer
Parece um teorema sem ter demonstração
E parece que sempre termina
Mas não tem fim.