7.13.2007
7.06.2007
Havia um lugar do qual estranhos não ousavam aproximar-se. Uma enorme mansão cercada e vigiada por centenas de guardas armados que ficava fora dos limites da cidade, refugiada pela vegetação aciculifoliada.
₪ Capítulo 03 – Coisas que fizemos
Todos os relógios marcavam exatamente uma hora da tarde. Era uma sala com o chão coberto por carpetes vermelhos e paredes cobertas por pinturas, exceto uma, uma parede completamente substituída por vidro, possibilitando uma visão privilegiada do lado de fora, enchendo a sala com a cálida luz do sol. Ao fundo desta sala, estava um sofá de três lugares e duas poltronas, ao redor de uma mesa de centro de mogno, onde repousava uma estatueta de pessoas sem rosto abraçando-se. Virado para a vidraça um piano de cauda.
Locke acompanhava uma partitura enquanto uma senhora sentada ao banco do piano junto deste, o instruía sobre o instrumento.
Sentada ao redor da mesa junto de Pedro, Walter e Olívia, Ortensia observava a aula conversando com seus visitantes.
- Que coisa mais chata! Não podemos fazer outra coisa? – perguntava Olívia bocejando.
- Não gosta de música? – perguntou Ortensia.
- De música sim! Mas, ele acerta três notas e depois recomeça. Isso não é música!
- Não deveríamos parar com essa aula e instruí-los sobre hoje à noite? – perguntou Walter.
- Não. Pode falar o que bem desejar a Olívia agora. Enquanto Locke, bem, eu falarei o que for preciso mais tarde. – esclareceu Ortensia.
- Sendo assim, vamos conversar em outro lugar. Não vou conseguir captar todas as informações desse jeito. – disse Olívia já se levantando.
Ela e o tutor retiraram-se da sala. Pedro e Ortensia permaneceram observando Locke enquanto conversavam em tom quase inaudível, como se trocassem confidências.
- Diga-me sinceramente, Pedro. Acha que esse plano vai dar certo?
- Ainda tenho minhas dúvidas.
- Como pensei.
Um momento de silêncio pairou na sala, e as notas musicais ecoaram.
- Você não se cansa de ser tão controladora?
- Para um bom condicionamento é necessário manter o controle. Se eu não fizer parte de todos os momentos, algo pode fugir a minha percepção.
- Ah! É nessas horas que me sinto grato por ter escapado disso.
- Não ser apto a nenhuma habilidade especial lhe faz bem? Eu fui condicionada no inicio dessa organização, sua mãe, seu tio, o mesmo para eles.
- Falando nisso, eu nunca soube o que fazia no começo.
- Não tive um tratamento tão rígido quanto o atual. Você vê, o mais fácil foi o de Olívia. Walter não tem pulso! Mas, é melhor não perder seu tempo imaginando como eu era quando jovem. Isso não faz parte da sua jurisdição.
* - * - * - * - *
Chegara a madrugada. Pedro observava o céu noturno sentando ao relento sobre um banco de praça, esforçando-se para não adormecer.
Olívia e Locke observavam o local da invasão, planejando como deveriam proceder.
- A única entrada para o subsolo é no quarto de um dos caras que você tem que eliminar. – dizia Olívia apontando o local sobre uma planta. – Vou arrombar as fechaduras e você mata quem for necessário até que cheguemos lá. Quando eu tiver acesso ao subsolo irei sabotar o sistema e enquanto isso você deve eliminar os outros marcados. Você estudou os caras, né?
- Por que tá agindo como se mandasse em mim?
- Porque você é mala demais pra mandar em alguém, logo, é óbvio que quem manda aqui sou eu!
- Eu, definitivamente, te odeio!
- Que bom que é recíproco. – respondeu sorrindo largamente.
- De qualquer forma, eu quero acabar logo com isso.
Locke deixou Olívia onde estavam e aproximou-se da entrada vigiada por cães de guarda. Antes que os animais pudessem confirmar a presença dele com latidos, o garoto puxou sua espada curta e retalhou-os. Percebendo a ausência da denúncia iminente, Olívia aproximou-se e retirou de sua mochila alguns aparatos que usou para arrombar a fechadura do portão silenciosamente. Depois de feito ambos entram na propriedade caminhando cautelosamente, preparados para atacar qualquer presença ameaçadora.
Finalmente chegam à porta da casa sem grandes problemas durante o percurso. Novamente Olívia possibilita sua entrada. Ao atravessarem a porta, se deparam com uma velhinha carregando um copo d’água, que olha instintivamente para trás ao ouvir o som da porta se abrindo.
- Quem seriam vocês? Visitantes a essa hora... – sussurrava a velhinha, receosa de acordar alguém.
- Viemos concertar um problema. Volte para a cama. Não haverá incômodo. – Olívia tentava amenizar a situação.
- Ela nos viu. – afirmava Locke. – Um risco em potencial. Deve ser eliminada.
- Fica quieto, garoto robô, eu resolvo isso.
- Sim. Façam seu trabalho. Não irei atrapalhá-los. – disse a velha virando-se.
Enquanto retirava-se calmamente, Locke aproximou-se sorrateiramente desta cravando-lhe a lâmina nas costas deslizando até a altura da cintura de onde a tirou bruscamente. Empurrou o corpo com a mão aberta, sobre o peito da vítima aplicou uma força de desaceleração reduzindo a velocidade de queda e anulando o som do impacto do corpo no chão. Após pousá-lo adequadamente voltou-se para Olívia. Ela o olhava com uma expressão de nojo enquanto este olhava rapidamente para os lados, em busca de prevenir-se contra qualquer outro que os visse.
Os dois juntaram-se e prosseguiram rumo ao quarto onde se encontrava a passagem para o subterrâneo. Chegando ao local, porta aberta, passos lentos e suaves para diminuir os ruídos. A pouca luz que vinha da janela era suficiente para mostrar-lhes o que precisavam dentro do quarto. Facilmente Olívia identificou a passagem da qual necessitava. Locke notou que na cama dormia um casal, mas que só deveria executar o homem.
- Tem dois. – sussurrou para Olívia antes que atravessasse a passagem.
- Faça como bem entender! Afinal, o bichinho irracional, retalhador de velhinhas e animais aqui é você! – depois destas palavras atravessou a passagem deixando-o proceder da maneira que bem entendesse.
Por alguns instantes o garoto observou o casal dormindo, mas logo apontou a lâmina para o peito do homem, cravou-a bem no meio, com força empurrou-a fundo.
A esposa começou a contorcer-se sobre a cama e aos poucos veio a abrir os olhos, esfregando-os sentou-se sobre a cama. Olhava para os lados. Finalmente seu olhar caiu sobre o corpo do esposo e Locke a esfaqueá-lo. Horrorizada com a cena soltou um potente e agudo grito, o qual Olívia pôde ouvir de onde estava, mas, mesmo preocupada com uma possível falha, continuou com a sua parte.
Surpreendido com o grito, Locke saltou sobre a mulher e com um movimento rápido desferiu um golpe transversal cortando desde seu ombro esquerdo até a altura do quadril direito.
Logo depois o quarto foi invadido por outras presenças que lhe ofuscaram a visão, acedendo repentinamente as luzes. Após a adaptação de suas pupilas, passou a eliminar todos que se pusessem em seu caminho.
* - * - * - * - *
Olívia atingira o local onde estava o sistema tão falado. Máquinas a ela desconhecidas preenchiam todo o ambiente. Precisava destruí-las o mais rápido possível, mas antes de qualquer coisa conectou seu laptop a rede, rastreou senhas e fez uma cópia de todos os dados disponíveis. Ao término desinstalou o sistema por completo, depois abriu a máquina central e dentro de seus mecanismos instalou uma bomba de grafite que seria acionada pelo seu computador assim que deixassem o local.
Terminando o serviço rumou ao encontro de Locke. Ao entrar no quarto novamente encontrou-o sentado ao canto, próximo a passagem, esperando-a, e vários corpos jogados ao longo do local, cujo piso, paredes e janelas estavam cobertos por sangue.
Os dois saíram da casa. Diante dos portões de entrada Olívia abriu seu laptop e acionou a bomba, silenciosamente, foram embora.
Encontraram-se com um Pedro sonolento num local afastado daquela casa. Os primeiros raios de sol já podiam ser vistos.
- Como foi? – perguntou espreguiçando-se.
- Quase não dá certo! Por sorte esse moleque é um psicopata. – dizia Olívia apontando para Locke, que esfregava os olhos baixos enquanto bocejava.
- Depois conversamos, o animalzinho tá com sono.
Os três partiram de volta a casa de Ortensia, onde descansaram.
* - * - * - * - *
Eram dez horas da manhã quando Olívia, sentindo-se já disposta a deixar seu descanso, saía para tomar um ar. Passeava pelos campos cobertos de neve com árvores sem folhas, flores ou frutos, apenas galhos sustentando porções de gelo e coníferas a seu redor, até que se deparou com uma figura familiar sentada ao chão folheando um livreto e tendo outros vários empilhados a seu lado. Figura que enchera seu rosto de felicidade e fizera transbordar-lhe alegria num grito e salto sobre este.
- ALEXANDER! – gritou ao saltar em cima dele, que se sentia desconfortável sob o corpo da garota.
- Olá. – respondia ao cumprimento sem o mínimo entusiasmo, desviando o olhar.
Do lado de dentro da casa, através de uma janela, Ortensia, Walter e Jousia, tutor de Alexander, observavam o que ocorria entre os dois. Jousia tinha estatura média, cabelos ruivos penteados para trás, com aquela aparência plástica, estava sempre sério e despreocupado.
- Surpreendentemente eles conseguiram sair-se bem. – comentava Ortensia. – Agora entendo sua fé na genialidade dela, Walter. Olívia sozinha pensou em usar uma bomba de grafite. Como ela procedeu a respeito desta, não me importa, mas foi muito esperta em usar algo que não mata.
- Não queríamos barulho, não é? Das vítimas, o seu garoto cuidou. – Walter respondia ao comentário.
- Estou curioso. – disse Jousia. – Sei que cheguei a pouco, mas sinto uma grande curiosidade. Quando conhecerei Locke? Quero comprovar as histórias que tenho ouvido. Não consigo acreditar em nada que me falam a respeito desse garoto.
- É engraçado. Mas, tudo que falam é verdade. É impossível acreditar na existência de um ser como ele. Mais difícil ainda é imaginar os métodos usados por Ortensia.
- Locke está dormindo. É o que mais gosta de fazer. – disse Ortensia. – Por que não aproveita para me falar de Alexander? Eu nunca o havia visto antes. A minha primeira impressão é de que tem um jeito muito parecido com o seu, Jousia.
- Alexander é o favorito de Olívia. – comentou Walter.
- Quando diz favorito quer dizer que ela...
- Exatamente! – interrompeu. – Você mesma referiu-se a Olívia como uma pervertida, sendo assim, refira-se a Alexander como sua vítima.
Jousia interrompeu o assunto, tão indesejado por ele, pigarreando. Depois de conseguida atenção e o término do que o incomodava, pôs-se a falar sobre o que Ortensia perguntara de início.
- Mesmo que eu seja tutor de Alexander e possa passar-lhe qualquer informação que queira a respeito deste, prefiro que pergunte ao próprio o que desejar saber.
- Se ele realmente for como você, é muito improvável que eu saiba alguma coisa. – diz Ortensia.
* - * - * - * - *
Olívia já havia saído de cima de Alexander, agora estava sentada ao lado deste, sob as árvores. Folheava descuidadamente seus livros, enquanto tentava puxar algum assunto com o garoto, que permanecia calado, observando as páginas.
Alexander tinha cabelos castanho-claros, olhos escuros e sempre se vestia com roupas que lembravam um uniforme militar. Devido ao clima hostil do lugar, estava com um casaco, luvas e um cachecol, todos cinza, acompanhando o vestuário costumeiro.
- O que você tá fazendo aqui? – perguntava Olívia.
- Lendo. – ele respondia sem tirar os olhos do livro.
- Não falo disso. Quero saber aqui, na casa da Ortensia?
- Jousia disse que viria visitar a senhora Ortensia e, como eu não estava fazendo nada e ele não quis me deixar só, resolveu me trazer junto.
- Que coisa!
- É.
- Não acha esse clima detestável?
- Na verdade não. É até bom.
- Que excitante... Vamos pro meu quarto?!
- Não está muito cedo para suas festinhas?
- Nunca é cedo de mais! Além disso, faz tempo que não nos vemos.
- Isso explica aquele grito que ainda me faz ouvir zumbido.
- Que bom que você não conhece o Locke. Se os dois se unissem eu pediria penico da vida.
- Você o conhece? É o que dizem?
- É. Acho que é. É sem noção. O tipo de pessoa que faz qualquer um perder a paciência.
* - * - * - * - *
No pequeno aposento escuro e desorganizado onde não há janelas, seu quarto, Locke, ainda embaixo de seus cobertores e deitado sobre a cama, abre lentamente os olhos. Após completamente abertos, permanecem fitando o vazio escuro do teto de seu quarto. Os interruptores estão longe de mais para ir aceder as luzes. Não lembra em que lugar do quarto deixou a luminária jogada. Apesar de não conseguir mais dormir, está muito bom ali para querer sair.
O som daquela correntinha denuncia alguém na porta, que pouco depois é aberta devagar deixando aos poucos a forte luz do lado de fora penetrar o ambiente. Um instante, ninguém entra. Som de vidro batendo e passos aproximam-se juntamente deste. Clara entra no quarto segurando uma bandeja. Desviando no meio da bagunça, chega próximo a cama, espera um pouco ali de pé, até que Locke, finalmente, vira o rosto ainda deitado em sua direção.
- Você está acordado! – exclama. – A senhora Ortensia disse que eu trouxesse café da manhã, mesmo que já fossem dez horas. Disse para deixar por aqui mesmo, caso não estivesse acordado.
Quando a moça terminou com suas palavras, Locke voltou-se novamente para o teto. Permanece fitando seu vazio tedioso. Diante disto, Clara aproxima-se ainda mais, senta no canto da cama e monta sobre este a bandeja que carregava.
- Locke, não acha que passa tempo de mais aqui dentro? Fica sozinho de mais? Na sua idade é mais normal interagir um pouco com as pessoas. Se quiser, eu peço a senhora Ortensia para deixar-lhe sair hoje. Tem aquela menina e acaba de chegar um rapazinho também. É companhia para você.
Depois disso, ambos permaneceram em silêncio, até que, mesmo sem desviar seu olhar na direção da moça, Locke pergunta:
- Já faz quanto tempo que você está aqui?
- Quer dizer... No quarto?
- Não. Há quanto tempo trabalha aqui?
- Um ano mais ou menos.
- Por que a tia Ortensia deixa você vir aqui sozinha?
- Eu... Não sei.
- Eu não quero sair daqui hoje. Não tenho nada a fazer lá fora.
- Mas, é fácil encontrar. Com certeza pode ser mais divertido do que ficar aqui. Agora, sente-se e coma um pouco. Eu vou falar com a senhora.
Clara levanta-se e em seguida ergue a bandeja já em posição para colocar sobre as pernas de Locke. Lentamente ele ergue-se sobre a cama, ajeita o travesseiro para deixar as costas descansarem. A moça deixa a badeja sobre o garoto que sem tocar em nada observa o que está lhe sendo servido. Pega o garfo e joga de um lado para o outro a comida sobre o prato.
- Não gosta? – ela pergunta ao observar o modo como o garoto está diante da refeição.
- Não consigo comer.
- É uma sensação normal que se tem quando acaba de acordar. Quando puser a primeira porção na boca, logo terá apetite.
Antes de deixar o aposento, Clara acendeu uma das lâmpadas, a pequena de luz amarelada que fica sobre a cama. Atravessou a porta trancando-a por fora.
* - * - * - * - *
Na sala de Ortensia, junto de seus visitantes, ela continua suas conversas, quando ouve batidas em sua porta. Cessando os assuntos e autorizando a entrada, Clara atravessa a porta e cumprimenta a todos. Logo em seguida, dirige-se a sua patroa:
- Desculpe-me se parecerei intrometida ou algo parecido, mas, gostaria de saber se seria possível deixar Locke sair hoje?
- Por que me pede isso? – Ortensia perguntou num tom esnobe.
- Porque eu acredito que faria bem a ele. – respondeu sem parecer atingida.
- Então, faça-o. Mas, tenho uma condição. Distribua suas tarefas entre os outros, hoje sua única tarefa será não sair de perto dele.
Entendendo a instrução recebida confirmou com um gesto de cabeça, pediu licença aos presentes e retirou-se do local.
Eles voltaram às discussões, mas não retomaram assuntos anteriores.
- Quem é essa? – perguntou Walter.
- Uma empregada. – Ortensia respondeu como quem não se importa.
- Não sabia que dava tanta importância aos seus empregados.
- Até agora essa foi a única que não teve problemas a respeito de Locke. É só isso.
- Que tipo de problemas? – perguntou Jousia tomando interesse pelo assunto.
- Aceitou ajudar ele e, até o momento, não tenho nenhuma reclamação de Locke a respeito dela.
- Ele reclama? – riu. – Não costumo me importar com as reclamações de Alexander. São sempre reclamações sem sentido.
- Deveria se importar. Isso que os faz confiar em nós. Eles confiam quando mostramos nos importar, mesmo que não nos importemos.
* - * - * - * - *
Locke está sentado em sua poltrona amarrando cuidadosamente sua gravata, quando sente um impulso que leva sua cabeça para trás. Clara está com uma escova nas mãos puxando os cabelos dele.
- Tá fazendo o que?! – pergunta irritado.
- Penteando...
- Não precisa! Eu posso fazer isso sozinho.
- A sua gravata está torta.
- Também ajeito isso sozinho.
Desfaz o nó e recomeça tudo de novo. Ao terminar, toma a escova das mãos de Clara e, apressadamente, tenta arrumar os cabelos. Quando acha que terminou, nota que não encontra nada com o que possa prender. Solta a escova no chão mesmo e sai procurando qualquer coisa que sirva pelo quarto.
- O que foi? – pergunta ao observá-lo.
- Não é nada. Eu resolvo.
Mesmo tendo ouvido apenas isso como resposta, ela deduz o que seja e começa a procurar também. Abrindo uma das gavetas da mesa sobre as imensas pilhas e papéis, Clara encontra uma fita branca de comprimento razoável. Olha pelo quarto, tentando localizar Locke, quando o vê, caminha em sua direção. De pé atrás deste, curvado procurando embaixo de suas coisas, ergue-o segurando-o pelos ombros, quando devidamente em pé, prende os cabelos com a fita, dando voltas o suficiente para não deixar pontas.
Ele toca o rabo-de-cavalo feito pela moça, checando a firmeza deste.
- Tava aonde?
- Dentro de uma gaveta.
- Eu podia ter achado! Podia ter prendido sozinho! Pára de fazer as coisas por mim! – demonstrava raiva tanto em suas palavras como expressão e gestos.
- O que incomoda tanto? Não é tão ruim assim ter quem faça algo por você.
- É ruim. Eu não preciso disso.
Terminando a discussão, apanhou sua capa e as luvas sobre a poltrona e as vestiu.
Retiraram-se do quarto. Clara trancou a porta e guardou a chave no pequeno bolso de seu uniforme.
* - * - * - * - *
Alexander lia seus livros embaixo das árvores secas do jardim, enquanto Olívia o agarrava pelas costas cercando seu pescoço com os braços, colando o rosto no seu. Vez ou outra apontava alguma coisa no livro. Ele parecia não se importar. Apenas ignorava com um silêncio desprezível.
Clara puxava Locke pela mão em direção ao encontro dos dois. Encontrando-os empurra o garoto para frente e recua. Toma certa distância e fica a observá-los.
Quando Olívia nota sua chegada, aperta o rosto de Alexander com as mãos e vira em sua direção.
- Esse é o Locke. – disse segurando a cabeça de Alexander.
Locke vira-se e caminha na direção contrária, quando ouve seu nome chamado por uma voz desconhecida, a voz de Alexander, que se soltava dos abraços de Olívia e punha-se de pé. O garoto vira-se de volta e observa-o esperando por algo. Mas, ambos mantêm-se calados. Quando Olívia nota que aquilo pode não sair do modo como esperava, e que a qualquer momento Locke pode resolver ir embora, deixando Alexander a, simplesmente, observá-lo, levanta-se e se junta a eles para tentar fazer as coisas andarem.
- Ei, Locke! – ela chamou. – Lembra que falei do Alexander. Este é o Alexander. – disse apontando.
- É um prazer conhecê-lo. – Alexander cumprimentou estendendo a mão a um aperto.
Locke aproximou-se devagar, hesitante apertou a mão estendida de Alexander.
- Agora você conhece dois de nós! – comentou Olívia. – Sabe, Alex, o Locke não sabia que havia mais além dele.
- Somos no total quatro rapazes e três meninas. – disse Alexander. – Ao menos que eu saiba.
- Como os outros são? – Locke perguntou.
- Eu posso descrevê-los. – propôs Olívia. – Ou melhor, posso mostrá-los.
Ela caminhou para o local onde estava junto de Alexander, sentada no chão, tirou o computador da mochila e colocou-o sobre as pernas, teclou rápido e vários arquivos apareceram abertos na tela. Os garotos sentaram-se cada um a um lado seu, e observavam ao que ela mostrava na tela.
- Não está muito completo. É um pouco superficial. Mas, vai dar pra entender o básico. Tem até fotos. Não são muito boas, algumas um pouco antigas, mas serve de referencia. – explicou ela.
Primeiro exibiu as informações que tinha sobre os próprios, ela, Alexander e Locke, depois começou a mostrar os desconhecidos a Locke, lendo em voz alto as informações principais, como nome, idade e especialidades. Também soltava alguns comentários relativos a sua opinião.
De longe, Clara observava os três juntos, satisfeita.